O
tema Fake News foi destaque no Programa “Jornalismo em Foco”, da Rádio Feevale.
O professor de Jornalismo da Universidade Feevale, Marcos Emilio Santuário, o
professor de Direito da Universidade Feevale, André Rafael Weyermuller, e a
jornalista e pesquisadora Tais Seibt, também coordenadora do projeto Filtro,
idealizado pela ONG Pensamento.Org. falaram sobre o assunto, apontando
peculiaridades sob vários aspectos.
O
quanto as Fake News podem impactar a nossa vida? E o Jornalismo? As leis
existentes estão acompanhando essa rapidez? O que fazer quando se tem uma Fake
News publicada nas redes? Como evitar a propagação das Fake News? Essas e
outras perguntas foram respondidas pelos três entrevistados.
As Fake News atingem a credibilidade do Jornalismo
Para
o professor do curso de Jornalismo da Feevale, Marcos Santuário, embora a
denominação seja recente, o conceito e as ideias são antigas. “Notícias falsas
não são propriedade desta década e desse momento. Isso já existe há muito
tempo. A conceituação veio com a nossa era da pós verdade, uma época em
que a arte da mentira está abalando todas as fundações da democracia”, comenta.
Segundo
Santuário, o jornalismo só perde com as Fake News, pois elas atingem o cerne do
jornalismo que é a sua credibilidade. “Quando uma Fake News se dissemina ela acaba com
a credibilidade do jornalismo e dos jornalistas. Os maiores produtores de Fake News são dois grupos: o daqueles incompetentes que não vão à essência da técnica
jornalística de apuração dos fatos à exaustão e também aquele grupo que o faz
intencionalmente movido por interesse políticos, econômicos ou os mais diversos.
Para eles a apuração das Fake News é o seu trabalho a cada momento”, disse o
professor. Para combater as notícias falsas, Santuário afirma que é preciso ir
à essência: “Primeiro pela checagem daquelas informações, daqueles conteúdos
que são divulgados, e também buscando a credibilidade desses propagadores de
informações. Não espalhar informações que não sejam checadas antes e expurgar
informações de fontes duvidosas. Aí é um trabalho muito árduo de quem realmente
se preocupa com a verdade em todos os sentidos”, finaliza.
Existem mecanismos legais contra as Fake News?
André
Rafael Weyermuller, professor de Direito da Feevale, ao comentar sobre o
aspecto legal das Fake News nas eleições e os mecanismos legais que existem contra as notícias
falsas, explica que dentro da perspectiva da responsabilidade civil, qualquer
notícia falsa ou caluniosa que possa colocar uma pessoa em uma situação de
constrangimento, pode ser demandada com ação própria. Como exemplo, cita os
danos morais por uma situação que foi provocada por alguém. “Porém, quando se
trata de fake news, a gente amplia esse debate para uma questão mais complexa,
que foge um pouco dessa situação individual, pois, nesta época agora de
eleições, de campanhas eleitorais, essas situações falsas podem criar um grave
prejuízo para uma pessoa que está pleiteando algum cargo público na eleição, e
por este motivo, existe uma grande preocupação do Tribunal Eleitoral, em
relação a ações que possam contribuir a essa prática das notícias falsas”, esclarece o professor.
Weyermuller refere que as notícias falsas ganham proporções em diferentes
momentos. “Essa situação de notícias falsas também não é apenas privilégio
dessa época de campanha eleitoral. Observando a história, se verifica em vários
momentos tanto aqui no Brasil como em outros lugares, sobretudo nos momentos
mais complicados da história, se vê muitas situações onde se criaram notícias
falsas sobre pessoas, sobre fatos, a fim de justificar uma posição política ou
atitudes de estado, que muitas vezes causou grandes tragédias”. Ele ressalta diversos
contextos históricos que envolveram as Fake News: “Se a gente pensar na época de pré construção
do nazismo na Alemanha foi muito utilizado as notícias falsas, muitas vezes
veiculadas pelos jornais, para disseminar ideias totalmente falsas sobre as
coisas e sobre a realidade, sobre grupos para justificar depois, na opinião
pública, certas atitudes ilegais que prejudicaram severamente as pessoas nos
seus direitos e depois acabou descambando numa questão muito mais grave, de
segregação, extermínio e total perca da humanidade”.
O
professor comenta sobre a forma como o Judiciário tenta coibir este tipo de
atividade. “A atuação do Judiciário para coibir esse tipo de coisa passa pela
constatação, pela denúncia e depois para as medidas judiciais que possam
determinar a exclusão de determinados conteúdos de alguns sites. Mas na prática
a disseminação de notícias pela internet dificilmente consegue ser revertida,
uma vez que esses tipos de notícias falsas ou essas calúnias, são passadas de
uma pessoa para outra numa velocidade muito grande. Fica muito difícil
conseguir alcançar tudo isso, apagar completamente isso que foi feito”.
O amparo
jurídico que pode ser pedido por quem sofre com uma Fake News publicada sobre si é apontado pelo professor: “Por
mais que seja difícil de identificar a origem de notícias ou fatos colocados na
internet em alguns casos é possível fazer isso, principalmente se a pessoa
prejudicada movimenta as suas estruturas, os seus colaboradores para fazer uma
busca dessa origem e responsabilizar uma pessoa específica. Então, não que não se
tenha como reprimir, mas há uma dificuldade muito grande por causa do dinamismo
da rede”, complementa Weyermuller.
"A verificação é o que diferencia o jornalismo de outros discursos que se vê por aí."
A jornalista
e pesquisadora Taís Seibt coordena o projeto Filtro, idealizado pela ONG Pensamento.Org que tem por objetivo tornar a disputa eleitoral no Rio Grande do
Sul mais justa. Ela e mais dois colegas vão se dedicar, até o final do pleito,
a fazer checagens diárias nas informações publicadas por candidatos e contra eles
por seus opositores ou até mesmo por robôs.
“Esse projeto foi formatado a partir
de estudos que realizei na minha pesquisa de doutorado, em fase de conclusão, a
partir de experiências pioneiras de fact-checking no Brasil, que já estavam em
atuação desde 2014/15. Elaborei esse projeto e levei para a ONG Pensamento e a
gente implantou esse trabalho de checagem sistemática, que é a primeira
experiência especifica de checagem, embora existam outras experiências pontuais
em períodos eleitorais, como no Zero Hora, por exemplo. Mas como especializado
em checagem, o Filtro é a pioneira.
Isso muito nos orgulha, e ainda mais por termos sido agregados à rede do Truco
nos estados, sendo o projeto Truco um desses pioneiros, um projeto de agência
pública, que está fazendo verificações em sete estados, além das verificações nos
discursos de candidatos à presidência”, conta Taís.
A pesquisadora fala de que modo o Fact-checking
recupera o trabalho que já era essencial do jornalismo, que é a verificação. “A
verificação é o que diferencia o jornalismo de outros discursos que se vê por
aí. Ainda mais nesse período em que há tantos discursos circulando em tantas
mídias e de tantas fontes diferentes. Então, a veracidade dessas fontes acaba
sendo questionada, e o jornalismo tem uma série de protocolos que já são da sua
prática tradicional, que são recuperados com essa prática de checagem, e agrega
outros conhecimentos de pesquisas e dados, conhecimentos de reportagem
assistida por computador. Isso faz com o que o jornalismo recupere uma posição social
de relevância no debate político que acabava se perdendo nos últimos anos, com
essa disputa por audiência. Muitas vezes o jornalismo atenuou suas convicções
em relação a interesse público, para atrair um maior público, as matérias que a
gente chama de caça clics que se tornaram recorrente na internet e que acabaram
colaborando com esse fenômeno de Fake News, porque o funcionamento das redes
sociais, se a gente levar em conta o Facebook que remunera os posts mais compartilhados,
mais curtidos, mais comentados, isso acabou incentivando cada vez mais uma
cultura com conteúdo questionável, não vou dizer que todos são mentirosas,
muitos são verdadeiros. O fact checking ajuda a trazer de volta o interesse
público para o jornalismo”.
Algumas Fake News que marcaram as redes sociais
· ➤➤ Após o assassinato da vereadora do
Rio de Janeiro, Mariele Franco, inúmeras teorias surgiram na internet sobre
possíveis ações da parlamentar carioca em defesa dos traficantes. Todas elas
falsas.
· ➤➤ Ainda no universo da política, a
eleição presidencial nos Estados Unidos, em 2016, foi marcada por escândalos e
acusações entre Donald Trump e Hillary Clinton. O republicano venceu, mas ainda
existem desconfianças sobre a utilização de notícias falsas para que ele se
beneficiasse. Segundo o jornal Washington Post, a propagação de boatos por
parte da campanha de Trump contra Hillary ajudou a elegê-lo como presidente da
maior potência mundial.
· ➤➤ Mudando de área, mas circulam
informações nas redes sociais envolvendo famosos. Entre elas, de que o cantor
norte-americano Jay Z teria pago 40 milhões de dólares para ter os diretos de
uma música inédita do músico Prince. Já o empresário britânico Richard Bransos
teria oferecido 800 milhões de dólares ao Led Zeppelin para uma turnê de 35
shows. Obviamente, tudo isso era falso.



